Livro VIDA NOVA

O eficiente tenente Raí Duran, recém-chegado à Divisão de Homicídios da Polícia de São Paulo, é perseguido por seu superior, o qual está envolvido num esquema que facilita o crime organizado em troca de fundos para financiar a campanha de reeleição de um político corrupto.
  
As coisas ficam ainda piores para o tenente, quando descobre que o amor de sua vida, a linda jovem Alva Ward, está marcada como próxima vítima de um perigoso assassino.

Raí e Alva se dizem apaixonados um pelo outro e acreditam que a confiança mútua é a base para todo relacionamento duradouro, até o dia em que... 
 
Romance, suspense e erotismo na medida certa em mais esta emocionante aventura com o casal Raí Duran e Alva Ward.
 

Vendas através dos sites das seguintes livrarias/editora:
 
Também disponível como e-book pela Amazon no Brasil (www.amazon.com.br) e no exterior.
 
Para aquisição direta com o autor veja link "Aquisição de Livros" no canto superior direito da página inicial deste blog.


PRIMEIRO CAPÍTULO
(DIREITOS AUTORAIS REGISTRADOS NA BIBLIOTECA NACIONAL)


       A Divisão de Homicídios da Polícia de São Paulo vinha se empenhando muito, há algum tempo, para tirar criminosos das ruas e colocá-los atrás das grades. O próprio governador, atuante e enérgico, preocupado com a população de seu estado, vinha acompanhando de perto as ações da Polícia e cobrando melhores resultados.
       O quadro de policiais na Divisão de Homicídios era composto, em sua maioria, de excelentes profissionais, todos qualificados e muito bem treinados. Suspeitava-se, contudo, da existência de alguns policiais corruptos infiltrados entre eles, o que manchava de certa forma a boa imagem da competente corporação.
       O capitão Júlio Braz, muito bem conceituado e com absoluta confiança de seus superiores e até mesmo do próprio governador, desempenhava seu trabalho com total autonomia. Isto havia sido conquistado devido aos excelentes resultados alcançados por ele e por sua equipe nos últimos dois anos. Braz estava consciente de que a segurança no estado de São Paulo e, principalmente, na capital, requeria melhorias. Ainda havia muito por fazer, mas, comparado a seu antecessor, Braz e sua equipe haviam feito grande progresso. Outra tarefa que lhe havia sido atribuída secretamente, além de sua missão regular de decifrar os crimes e prender os criminosos, era a de identificar os policiais corruptos que eventualmente existissem na Divisão de Homicídios, e afastá-los da corporação.
       O capitão Braz era um homem moreno, alto e forte, que não aparentava seus quarenta anos, apesar de alguns fios de cabelo brancos que começavam a surgir nas laterais de sua cabeça, pouco acima das orelhas, para tentar denunciar a sua idade. Casado e pai de dois filhos, ele sempre dizia não ter muito tempo para a família e passava a maior parte do dia no trabalho, ora no escritório, ora em campo, acompanhando o avanço das missões por ele atribuídas às suas várias equipes de trabalho.
       O que mais lhe vinha sendo cobrado por seus superiores, nos três últimos meses, era a solução para uma crescente onda de assassinatos, que pareciam estar ligados a uma quadrilha de traficantes, que atuava principalmente na região sul da cidade, nos bairros do Morumbi, Moema e Ibirapuera. Era exatamente sobre isso que ele estava pensando naquela quarta-feira pela manhã.
      Bastante preocupado, Braz estava sentado em seu escritório, com os cotovelos sobre a mesa e a cabeça apoiada nas mãos que cobriam parcialmente seu rosto, quando sua concentração foi quebrada pelo toque de um dos telefones sobre a antiga mesinha de madeira encostada na parede à sua direita.
      Braz olhou para os dois aparelhos e um deles piscava uma luz vermelha. Aquele não era um número ligado ao PABX e, normalmente, era usado apenas em emergências ou por pessoas muito chegadas a ele, em casos excepcionais.
      – Capitão Braz – atendeu ele após esticar o braço para pegar o aparelho e levá-lo rapidamente ao ouvido.
      – Fala aí, homem da lei – respondeu o deputado Marcio Colosso do outro lado da linha, sentado em uma confortável poltrona, apoiando os pés sobre uma enorme mesa, em seu luxuoso gabinete.
      Marcio Colosso estava no último ano do seu primeiro mandato como deputado estadual e tornara-se mais chegado ao capitão Júlio Braz há cerca de seis meses.
     O capitão fechou seus olhos escuros, quase negros, e colocou a outra mão atrás da cabeça, antes de responder.
      – Fala, Marcio! O que você me conta de bom? Ou será que você me ligou para pedir outro favor?
      Com trinta e sete anos de idade, bonito, pouco mais de um metro e oitenta de altura, corpo esbelto, cabelos loiros e olhos verdes, Marcio Colosso era considerado um homem atraente pelas mulheres e, frequentemente, assediado por elas.
      – Hei, espera aí, amigão. Desse jeito você me deixa sem graça. Até parece que eu fico o tempo inteiro te pedindo favores! Também não é assim! – Respondeu Marcio.
      – Me desculpe, Marcio. É que a pressão por aqui anda muito grande, cada vez maior. Não está nada fácil controlar as coisas.
      – Pode ficar tranquilo. Eu não liguei para te pedir nada. Só preciso que você continue a fazer aquilo que nós combinamos, pelo tempo já acordado. Só mais alguns meses. É tudo o que falta. As eleições estão logo aí – disse Marcio, tentando tranquilizá-lo.
      O capitão se ajeitou melhor na cadeira, apoiou-se no encosto, franziu a testa, e respondeu:
      – Alguns meses pode ser tempo demais, Marcio. Você sabe que nós estamos nos expondo muito, ou melhor, “eu” estou me expondo muito – disse ele apontando o dedo indicador da mão esquerda para o próprio peito, como se o deputado pudesse vê-lo naquele momento – Já tive que envolver três pessoas aqui da divisão e tive até que transferir um policial para outra equipe, porque ele estava começando a fazer muitas perguntas inoportunas. O pessoal aqui não é bobo. Daqui a pouco vão começar a desconfiar. Se é que já não estão desconfiando! – Completou ele, preocupado.
     – Esses meses vão passar rápido, você vai ver. É só aguentar até um pouco antes das eleições, meu amigo. Afinal de contas, sempre foi difícil desvendar os crimes e prender os criminosos nesta cidade. Posso saber por que toda essa preocupação e por que você teria que prender esses traficantes bem agora?
      O capitão baixou o tom de voz, cobriu com a mão esquerda parte do bocal do telefone juntamente com sua boca e respondeu baixinho olhando para a porta, como para proteger-se de alguma entrada inesperada:
       – Porque agora nós já sabemos quem são eles e onde eles estão. O pessoal fica me questionando a toda hora por que não vamos lá prendê-los de uma vez. Não é fácil segurar a turma.
      – Braz, você sabe tão bem quanto eu que, neste momento, esses traficantes são a minha principal fonte de arrecadação, ou melhor, “nossa” fonte de arrecadação.
      – Eu sei, eu sei. Não precisa repetir isso toda vez que você fala comigo, ainda mais por telefone.
      – Você é esperto, Braz. Invente qualquer coisa para esses idiotas aí que querem prender os traficantes. Ganhe algum tempo. Diga a eles, por exemplo, que é preciso examinar melhor a situação, para que se assegurem de que não há nenhum outro peixe grande por trás dos crimes.
      – E você pensa que eu já não fiz isso? Olha, se eu tiver que envolver mais gente durante esse tempo que falta, vamos precisar de mais dinheiro. Eu estou falando sério – ameaçou o capitão, ainda cobrindo o bocal do telefone com a mão.
      – Tudo bem, não tem problema, mas não pode ser muito mais. Olha só, esses traficantes já estão dando muito dinheiro para nós. Eles só vão continuar dando essa grana toda, se nós os deixarmos em paz. Dentro de alguns meses eu já vou ter o suficiente para bancar todos os custos da minha campanha de reeleição. Depois disso, eu digo a eles que mudou alguma coisa na Polícia, que eu perdi meu contato aí, e que não vai dar mais para manter o nosso acordo. Aí você faz o que quiser com eles. Você pode até mandar matar todos esses vagabundos, se quiser. Para mim é até melhor.
      – Você diz que eles estão dando muito dinheiro, mas é só para você e para a sua campanha. Aqui para mim e para o pessoal envolvido da minha equipe não está vindo grande coisa – reclamou o capitão mais uma vez.
      – Ah, é? Você acha que um milhão e meio de reais, por fora, limpinho de impostos, para vocês dividirem entre os que entraram no esquema, é pouca coisa? Ainda mais você, Braz, que vai ficar com um milhão! Sabe quanto tempo você levaria para juntar todo esse dinheiro só com o seu salário aí na Polícia? Você está reclamando do quê?
      – Pelo risco que eu estou correndo, esse dinheiro é pouco sim – respondeu o capitão passando a ponta dos dedos da mão esquerda pelos cabelos, coçando o couro cabeludo, reação que tinha quando começava a sentir-se irritado.
      – Bom, não adianta a gente ficar discutindo por algo que nem aconteceu – retrucou o deputado – Eu não quero ficar preocupado à toa. Provavelmente você nem vai precisar envolver outras pessoas. Aí fica tudo certo. Mas fique tranquilo, se você precisar envolver mais alguém, a gente volta a conversar e dá um jeito.
      Apesar da expectativa de receber um milhão de reais, o capitão Júlio Braz sentia-se arrependido de ter entrado no esquema com o deputado Marcio Colosso, e esperava ansioso pelo dia em que isso acabaria. Ganhar esse dinheiro o ajudaria muito no futuro, mas, os poucos meses que faltavam para concluir o prazo acordado com o deputado, pareciam para ele uma eternidade e o deixava cada dia mais preocupado.
      – Está bem. Mas então, Marcio, se não foi para pedir nada que você me ligou, qual foi o motivo da sua ligação? – Perguntou o capitão, tentando tirar as preocupações de sua cabeça.
      – Ah! Até que enfim, Braz. Pensei que você nunca fosse me perguntar. Você pensa que eu só trago encrenca para você? Hoje, meu amigão, você vai me agradecer – disse o deputado todo convencido.
      – Ah, é? E por que eu vou fazer isso?
      – Espera só até eu te contar.
     O deputado ajeitou-se melhor na poltrona, inverteu as pernas cruzadas com os pés sobre a mesa e recomeçou a falar:
      – Meu amigo, eu conheci uma morena, daquelas de cinema. Uma belezura. Coisa linda, de primeira mesmo. Daquelas de torcer o pescoço para continuar olhando depois que ela passou. Sabe como é? O nome dela é Bianca, mas ela gosta de ser chamada de Bibi. O cabelo dela é preto, brilhante, cheiroso, e ela usa um corte de cabelo que deixa aquele pescocinho delicado aparecendo atrás. Sabe qual é?
      – Sei.
      – Rapaz, e o corpo da morena, então! É de tirar o fôlego! Nem vou comentar sobre quando ela me olha com aquele olhão azul e fica me encarando. Uau, amigão, ela me tira do sério.
      – Escuta aqui, Marcio. Não é por nada, mas até agora eu não ouvi nenhum motivo para eu lhe agradecer nada.
     – Calma, eu chego lá. Você não está achando que uma garota dessas não tem nenhuma amiga, não é? E é agora que você vai me agradecer. Lembra que você me disse que era tarado por essas branquelinhas com o cabelo loiro puxando para o vermelho?
      – Sim, e daí?
      – Pois é, meu amigo, então vai me agradecendo porque eu achei uma dessas para você, com os cabelinhos na altura dos ombros, bem do jeitinho que você gosta. E com olhinhos verdes e tudo mais. Ela é mais ou menos da altura da Bibi, talvez um pouquinho mais alta, e tem o maior corpaço e uns peitos que vão te deixar com água na boca.
     – Eu sou um cara casado, Marcio.
     – Para com isso, Braz. Pra cima de mim? Como se eu não te conhecesse!
     – E como é o nome dessa beldade?
     – Valéria. Mas a Bibi chama a amiga de Val. Eu só bati um papinho rápido com ela em frente ao prédio da Bibi ontem à noite e, de cara, me lembrei de você. Eu era até para ter te ligado ontem mesmo, mas depois achei melhor deixar para hoje cedo. E aí, o que você acha? Que tal um programinha? Eu, você e as duas?
      – Você nem sabe se essa tal de Val tem namorado ou marido e fica me convidando para sair com ela. Se ela é tão bonita assim como você diz, já deve ter namorado.
      – Eu já perguntei isso pra Bibi. A Val não tem namorado no momento. As duas são divorciadas. Di-vor-ci-a-das. Sabe o que quer dizer isso? Quer dizer que é só a gente saber chegar nas duas que elas vão se entregar na certa.
      – Você tem mania de exagerar. Elas não devem ser tudo isso que você está falando e, de mais a mais, você está generalizando o comportamento das mulheres divorciadas.
      – Vai por mim, Braz. É bem como eu estou falando, mas, tudo bem, se você não quiser entrar nessa, eu arrumo outro parceiro.
      – Não! Tudo bem. Eu te acompanho. Mas olha lá, hein! Tem que ser algo bem discreto. Você sabe muito bem que eu não posso ser visto com nenhuma garota – alertou o capitão.
      – Tranquilo, Braz. Você não confia em mim? Então, – disse ele sem esperar pela resposta – pode deixar comigo que eu ajeito tudo com a maior discrição. Vou falar com a Bibi e, se tudo der certo, você vai me agradecer por muito tempo.
      – OK, Marcio. Se a garota é tudo isso mesmo que você está falando... Agora me deixe trabalhar. Pensa que eu sou como você, que não deve satisfações a ninguém e que pode ficar por aí, atrás das garotas?
      – Braz, um bom político tem que fazer as coisas que o povo pede. As garotas são parte do povo. Elas é que me procuram. Eu só estou atendendo os meus eleitores, ou melhor, minhas eleitoras – disse o deputado antes de terminar com uma sonora gargalhada.
      – Você é um safado de marca maior.
      – A vida é curta, Braz. Ponha isso na sua cabeça. Aproveite enquanto é tempo. Por falar nisso, e o resto das coisas aí na divisão e com a família, tudo bem?
      – Tudo normal. A única coisa de diferente que está acontecendo por aqui é a entrada de um novo policial na minha equipe. Ele prestou concurso recentemente e entrou para a Polícia aqui em São Paulo, mas já era tenente lá no Rio. Ele veio aqui para a minha divisão meio “goela abaixo”, indicado pelo pessoal lá de cima. Nem tive chance de recusar. Mas dizem que o cara é dos bons, que resolve todos os casos, e que vai ser um bom reforço para a minha equipe.
      O deputado deu uma risada de deboche.
      – Um carioca? Não sei não! Deve ser um pilantra qualquer, desses com bom papo e que conhece alguém importante. Só pode ser indicação política. Como é o nome da figura?
      – Raí. Tenente Raí Duran. Ele vem se apresentar a mim depois de amanhã.
      – Braz, veja se não coloca esse tenente no caso dos traficantes. Vai que o cara resolve tudo mesmo e acaba atrapalhando o nosso esquema.
      O capitão inflou o peito e fez uma pose antes de responder.
      – Meu chapa, agora sou eu quem diz para você ficar tranquilo. Eu já sei o que vou fazer com esse tenente no início. Vou pedir para ele preparar uma montanha de relatórios atrasados de casos já resolvidos. Vou deixar o carioca atrás de uma mesa até a bunda dele ficar quadrada.
      – É isso aí, Braz. Perfeito. Vejo que vamos ter uma longa e rentável parceria. Você parece que é santo, mas, a cada dia que passa, eu vejo que nós não somos muito diferentes.
      O capitão Júlio Braz não gostou muito de escutar aquilo e de se sentir igual ao deputado.
      – Eu estou é me sentindo muito mal com tudo o que estou fazendo. Não gosto nem um pouco desse negócio com os traficantes. No final do período que acordamos, na época das eleições, eu não quero mais saber de nada disso. Vou pegar o meu milhão e cair fora assim que possível.
      O deputado deu uma risadinha zombando do que acabara de escutar, antes de responder.
      – Mas outros negócios desse tipo aparecerão, meu velho. Não pense que a coisa vai parar por aí.
      – Nem me procure para outros negócios depois das eleições. Não quero saber de nada disso. Estou fora – respondeu de imediato o capitão.
      – Tarde demais, Braz. Essa porta somente se abre para o lado de dentro. Dizem que quando se tenta abri-la para o outro lado, começam a acontecer coisas estranhas com a família da gente.
      – O que é isso, Marcio? Você está me ameaçando?
      – Claro que não, Braz. Eu sou seu amigo. Só estou te contando o que eu escuto falar por aí. É melhor você pensar bem antes de fazer qualquer bobagem, porque eu gostaria muito de continuar seu amigo. Eu não estou nisso sozinho e nem tudo está sob o meu controle. Só estou te avisando. Quem avisa, amigo é.
      O deputado Marcio Colosso apenas ouviu um clique e logo em seguida a linha ficou muda. O capitão Júlio Braz havia desligado o telefone sem se despedir e, naquele instante, o deputado imaginou as possíveis consequências de um rompimento entre eles.
      Ele não vai ser louco de fazer uma bobagem nessa altura do campeonato. Pensou o deputado com cara de poucos amigos, enquanto retirava os pés de cima da mesa e recolocava o celular no bolso do paletó.
 



 

Nenhum comentário:

Postar um comentário